O que veio depois da peça: Eu Tenho Voz leva 31 estudantes a procurar atendimento em Jundiaí
Projeto do IPAM alcançou 663 alunos na EMEB Aparecida Merino Elias e levou a peça “Marcas da Infância” às famílias da EMEB Lázaro Miranda Duarte
O que acontece depois que a peça termina também ajuda a dimensionar o alcance do projeto Eu Tenho Voz. Em Jundiaí (SP), após quatro apresentações na EMEB Aparecida Merino Elias, 31 estudantes foram ouvidos individualmente. Ao todo, 663 alunos do 6º ao 9º ano participaram das atividades promovidas pelo Instituto Paulista de Magistrados (IPAM).
Entre as 31 oitivas realizadas, oito envolveram relatos de abuso sexual; sete, abuso físico; quatro, violência doméstica; seis, bullying; e outras seis estiveram relacionadas a sentimentos negativos persistentes e outros relatos.
Para a idealizadora do projeto, desembargadora Hertha Helena Rollemberg Padilha de Oliveira, os números revelam uma dimensão do trabalho que ultrapassa a apresentação teatral.
“Quando a peça termina e uma criança procura alguém para falar, começa talvez a etapa mais importante do nosso trabalho. São situações que muitas vezes permanecem escondidas dentro de casa, da escola ou da própria criança. O Eu Tenho Voz existe para que ela consiga reconhecer o que está vivendo e saiba que pode pedir ajuda”, afirma.
Na EMEB Aparecida Merino Elias, as quatro apresentações foram realizadas nos períodos da manhã e da tarde. A diretora Marjorie Samira Ferreira Bolognari e a coordenadora Adna Fachini de Bortolo acompanharam a iniciativa.
O IPAM foi representado pela juíza Tatiane Moreira Lima e pela advogada Maria Fernanda Junqueira da Veiga Serra. Também estiveram presentes a coordenadora do Núcleo de Enfrentamento à Violência da Secretaria Municipal de Educação de Jundiaí, Renata Longui, e integrantes de sua equipe.
A atuação do Eu Tenho Voz no município também chegou aos adultos. Na EMEB Lázaro Miranda Duarte, onde o projeto já havia realizado uma apresentação para as crianças, a peça “Marcas da Infância” voltou ao palco, desta vez diante das famílias.
A atividade buscou incluir pais e responsáveis na discussão sobre as diferentes formas de violência contra crianças e adolescentes e sobre a importância de perceber comportamentos e sinais que podem indicar que algo não vai bem.
O diretor Marcel Ercolin Carvalho recebeu a equipe para a atividade, que contou novamente com a participação de Renata Longui e de profissionais da Secretaria Municipal de Educação.
Representando o IPAM, participou Márcio Maia, voluntário do projeto, advogado, psicólogo, palestrante e investigador da Polícia Civil, com atuação especializada na área criminal e no enfrentamento à pedofilia.
Segundo a desembargadora Hertha Helena, levar a discussão também às famílias é uma consequência necessária do trabalho desenvolvido com os estudantes.
“Não podemos ensinar uma criança a falar sem preparar os adultos para ouvi-la. Quando o projeto chega às famílias, estamos trabalhando justamente essa outra parte da responsabilidade: reconhecer os sinais, acolher uma revelação e saber como agir. A proteção da infância depende também da capacidade que nós, adultos, temos de ouvir”, ressalta.

As ações nas duas escolas mostram, assim, dois momentos de um mesmo trabalho. De um lado, 663 estudantes diante de uma peça que trata de situações que podem fazer parte de suas próprias histórias. Do outro, famílias chamadas a reconhecer seu papel diante dessas histórias. Entre os dois, 31 alunos que, depois que a apresentação terminou, encontraram uma oportunidade para falar.